De nada adianta

27 dezembro, 2010

As marcas sem piedade

nos fazem lembrar

de algo que talvez

não devêssemos esquecer

e conhecer a vida

na teoria

não é suficiente

para escapar à tragédia

De nada adianta

saber que o imponderável nos persegue

de nada adianta

saber que tudo tem um fim estipulado

que já aconteceu

em um futuro simultâneo

de que é prudente se conformar

Há experiências que a racionalidade

não é capaz de alcançar

E segue-se de luto em luto

a juventude que chegou ao fim

a garota que me deixou

a casa que nasci, cresci

um pássaro que se pôs

a voar

Mortes irreais

daquilo que continuou

a existir sem mim

deixando-me ainda

com meu destino incerto

ponderação hesitante

do meu medo aberto

Fico pensando

se não há nada de mais natural

do que o tempo imaginário

levar consigo a criança

do que uma garota abandonar

o que não faz mais sentido

do que um pássaro bater

as suas asas

 

Contudo

de nada me adianta pensar

 


702U/10

13 agosto, 2010
dos motoristas de ônibus, gosto dos loucos
que não são prudentes e aceleram
ao verem o farol ficar amarelo
porque o tempo é pouco
e o trânsito é demasiadamente severo
para se preferir um trajeto austero
costumo intuir a natureza do condutor
no instante em que piso em sua máquina
porém, este me enganou com primor
sorriu docílimo, só faltou estar de gravata
agora maneja o câmbio com braveza,
o temerário capitão da fragata,
como que insultado
por ser forçado a andar em segunda
Por isso, escrevo
com a letra torta e corrompida
Pois faço curvas que me dariam
a pole em qualquer corrida
Mas, se esse poema te arrancou uma risada
já valeu a pena molhada

superestimado

12 julho, 2010

Sinceramente, costumo superestimar
achava que o primeiro beijo seria um transe
sinos, luzes, cérebro escorrendo pela espinha
foi um beijo. Respiração, língua, molhado, bom
Beijar na chuva, outra desilusão
gosto amargo da água escorrendo nas árvores
antes de chegar à minha boca
Já no sexo cheguei cético
Passei no vestibular, um ano de esforço
e não senti nada, tirei a carta, nada, somente
a obrigação. Coloco um sorriso no rosto
para não causar espanto em quem parabeniza
minhas metas sempre foram tão distantes
que pequenas coisas não causam a menor comoção
Quando aquelas se dissolvem é que se fica sem saber
talvez, seja esse o problema, ter buscado demais
em que me guiar, o certo e o errado,
planejar como tudo seria antes do apito soar
talvez por isso, minha antipatia com qualquer um
que ache declare que a vida é boa demais
talvez por isso, toda segunda de terapia consista
em queixas de que a vida não me é suficiente. Não
que eu precise de mais do que uma vida, mas sim
de que nela seja necessário mais de mim
Meu objetivo sempre foi fugir do finito, só
os meio mudaram. Fama e dinheiro
cortados rapidamente; política, logo em seguida;
restou a ciência e a escrita.
Só até descobrir como o conhecimento é incerto
os autores que você estudo e adora
apenas se encaixam em um pacote datado
logo mudam, visto que tudo é perene
Meu projeto de imortalidade esteve sempre fadado ao óbito
Não que meu problema seja com a morte
pois é com os outros continuarem a viver sem mim
Finita la comedia, resta saber como reconhecer
aceitar a própria mediocridade
Ou, então, me aponte o que valha a pena ser sonhado


Tampa sem panela

18 fevereiro, 2010

às vezes penso que sou uma tampa sem panela
posto que uma panela sem tampa ainda tem alguma serventia
mas, o que pode ser de uma tampa solitária?
alguns bem intencionados podem até a usar para se abanar
mas, com todo seu peso, não teria um futuro promissor
uma revistinha é muito mais qualificada, tampa danada
por outro lado, a panela nada teme
independente, não precisa de nada além
de um pauzinho para dar remexida vez ou outra
se não a comida queima, a fumaça cresce e a família chora
porém, ela pode fritar um ovo, requentar um almoço
ou ser valorizada, virar uma panela flambadora
enquanto a tampa sem serventia é rabaixada
sai girando pela janela, uma tampa voadora
talvez, no máximo, a comida da panela
fique queimada, seca, crua
vai saber, não sei cozinhar
não sei a utilidade de uma tampa
não sei o que devo tampar


O Pianista

29 novembro, 2009

De costas para tudo

tocando na parede de madeira

suas mãos perversamente afundam

teclas que insistem em voltar

não sem um soar melodioso

um grito que busca os presentes

no bar, bebendo outra noite

fundindo todos ao ambiente

o pianista não tem rosto

apenas um paletó azul marinho

pés calculados que apertam o pedal

mãos que na pausa bebem

água em uma taça de vinho


29 novembro, 2009

Esse foi escrito em um dia em que o sol finalmente venceu o frio que perdurou por muito tempo neste ano

 

 

Vamos comemorar, amigo

finalmente o calor está de volta

não me recordava nem de como era um umbigo!

e não são só eles que vêm

há também as pernas de fora

e os finos braços também

estão todos a mostra

passeando para celebrar

que é do sol que o corpo gosta


29 novembro, 2009

Deslocando-se

Desloucou-se

Descolando-se

Decolou


Acabou a luz no centro de São Paulo

11 novembro, 2009

De repente, escuridão
procura nas gavetas da cozinha
uma última velha vela
só para depois se espantar
“não tem fósforo em casa”
“acende no fogão”
“o fogão é elétrico”
uma família inteira na janela
brinca de jogar luz na rua
com um par de lanternas giratórias
embaixo, o som do borrão
sem a luz do poste
berros e risos se espalham
não há lei ou juiz
como se amanhã
ninguém fosse se lembrar
posso dizer que não fiz!
uma mulher corre piscando
aprisionada na luz dos faróis
medo de estupro no beco
filho em casa chorando
marido com outra sob os lencóis
na esquina, um único prédio aceso
proprietário endinheirado e iluminado
quando criança, apenas brinquedo importado
ainda não sabe brincar, rico infeliz
passando hora após hora
volta a energia, computador se inicia
digno de gol, gritos de comemoração
não há mais nada para olhar lá fora
a varanda já está vazia
podemos voltar a nossa própria escuridão


5 novembro, 2009

um homem sem paixão ou tristeza
que não sente ternura ou pavor
não atinge a desejada proeza
de se tornar exímio escritor


constipado

15 outubro, 2009

os papéis se acumulam em pilhas
ja não existe razão para ler
muitas pessoas para pedir perdão
mas não sei por que o fazer
tantos desejos antigos a se dissipar
com a descoberta de que não se mantém
quando estão próximos de se realizar
enfim, estou preso, e não sei em quê
sem incomodo que me motive a reclamar
sem nada que cause interesse para clamar
na calçada em que muitos passam céleres
ando sem afobação, só por caminhar
deixo me levar, sem intenção
quando chego no final do além
não busco uma saída, apenas torno
sigo ainda mais adiante
as pessoas que passam atraem o meu olhar
procuro perguntar se há um motivo para correr
porque eu já não tenho pressa
não percebo o medo de morrer
no entanto, essa espinha em minha garganta
trespassa-me, impossibilita a fala
só me resta observar
para trás olho constantemente
contemplando o tempo perdido
mas é difícil a noção de perder
quando não se sabe o que é ganhar